Na abertura do ATD 2026, em 18 de maio, Zack Kass, ex-Head de Go-To-Market da OpenAI, entregou uma das palestras mais impactantes do evento. Sua mensagem central contradiz o senso comum: a inteligência artificial não é o personagem principal dessa história. Quem ocupa esse lugar é a humanidade. Em pouco mais de uma hora, Kass mapeou os riscos reais da IA, apresentou evidências concretas de seu potencial transformador e propôs um caminho prático para líderes, profissionais de T&D e organizações navegarem essa transição com propósito, e otimismo fundamentado.
“A IA é o pincel. O potencial humano é a obra-prima.”
Essa foi a frase com que Zack Kass, na ATD 2026, abriu sua palestra no palco principal, e ela resume, com precisão cirúrgica, a tese que conduziu toda a apresentação.
Após mais de 15 anos na linha de frente da transformação global da inteligência artificial, incluindo sua passagem pela OpenAI, onde acompanhou o nascimento do ChatGPT, Kass chegou ao ATD com uma missão clara: desafiar a narrativa distópica que domina o debate sobre IA e apresentar uma visão positiva, baseada em evidências, sobre o que essa tecnologia pode fazer pelo ser humano.
Ao longo da palestra, ele percorreu a história da IA, apresentou sua teoria das fases de integração tecnológica, listou os riscos que precisamos enfrentar com seriedade e, sobretudo, mostrou por que o otimismo não é ingenuidade, mas uma obrigação moral para quem cuida do desenvolvimento de pessoas.
De onde viemos: a trajetória da IA em perspectiva
Para contextualizar o momento atual, Kass fez um percurso histórico que ajuda a dimensionar a velocidade da transformação em curso.
O conceito de máquinas pensantes surgiu ainda antes dos computadores modernos. A expressão “inteligência artificial” foi cunhada em 1954, mas por décadas permaneceu no campo teórico. Os avanços eram incrementais, aproximadamente 2% ao ano nos modelos de aprendizado de máquina estatístico, até chegarmos aos anos 1990 e 2000, quando empresas como Netflix e Google começaram a usar personalização de forma perceptível.
O grande salto, porém, aconteceu em 2017, quando oito pesquisadores do Google publicaram o artigo “Attention Is All You Need”. Esse paper introduziu a arquitetura transformer, a base dos modelos GPT, e mudou radicalmente a lógica de como as máquinas processam informação: de forma linear para paralela.
A progressão foi acelerada:
- 2018–2019: GPT-1 e GPT-2 dominam texto
- 2021: GPT-3 chega ao mercado
- 2022: modelos de geração de imagem; lançamento do ChatGPT em 30 de novembro
- 2024: Gemini e GPT-4o vencem a Olimpíada de Matemática, um teste historicamente reservado a gênios humanos
Hoje, em 2026, Kass resume o estado da arte em uma única frase: “Estamos construindo máquinas que possuem equivalência e superioridade intelectual humana.”
O dado que muda tudo: o colapso do custo de inferência
Mais do que a performance dos modelos, o que Kass destaca como o verdadeiro divisor de águas é a queda vertiginosa no custo de uso da IA.
Quando o GPT-3 foi lançado, o custo era de US$ 30 por milhão de tokens. Hoje, esse número chegou a US$ 0,00001 por milhão de tokens, uma redução de proporções históricas. O GPT-5.2 custava US$ 60; já está abaixo de US$ 1,70. O GPT-5.4 segue na mesma trajetória.
Por que isso importa? Kass recorre a uma análise econômica simples: medimos o progresso humano em dois eixos, quão livres somos para escolher nossa versão de felicidade e quão barato é fazê-lo. Quando um recurso crítico se torna barato, ele se torna uma utilidade, como eletricidade, água ou internet. E utilidades geram outras utilidades.
“A queda no custo de inferência é a melhor evidência que tenho de que algo economicamente muito positivo está acontecendo.”
Em outras palavras: a IA está deixando de ser um privilégio de quem pode pagar e se tornando infraestrutura acessível. Isso tem implicações profundas para o T&D, para organizações e para a sociedade.
As três fases de integração da IA: em qual estamos?

Kass apresentou uma teoria, desenvolvida por ele há cinco anos, sobre como a IA chega às nossas vidas em fases distintas. As três fases são:
Fase 1: Aplicações aprimoradas (Enhanced Applications)
É o mundo que já conhecemos: ferramentas com IA integrada que tornam tarefas mais fáceis sem exigir mudança de comportamento. O ChatGPT foi o principal exemplo dessa fase, criado, segundo Kass, como um “honeypot de marketing” para mostrar às lideranças o potencial da API da OpenAI. Funcionou: catapultou o setor inteiro. Nessa fase, a IA é software turbinado.
Fase 2: Agentes autônomos (Agentic AI) – estamos aqui agora
Kass descreveu a IA agêntica como máquinas capazes de executar tarefas e objetivos em nosso nome, atravessando navegadores, bancos de dados e aplicativos de forma autônoma. Em sua definição bem-humorada: “É uma Siri que funciona.”
Essa fase tem duas consequências que ainda não estamos discutindo o suficiente:
1. A reescrita da estrutura da internet. A internet foi construída como uma biblioteca, depois transformada em shopping center (HTML navegável). Com agentes capazes de executar tarefas por nós, não precisaremos mais visitar sites que nos tratam como alvos de publicidade. O resultado provável? Uma internet projetada para agentes, não para olhos humanos, baseada em arquivos de texto simples (TXT/XML), não em HTML.
2. A fronteira da automação. Se você pudesse automatizar tudo em sua vida, onde pararia? Essa pergunta, que Kass chama de “automation boundary”, vai precisar ser respondida por consumidores e empresas. A eficiência, ele alerta, não é o objetivo final. Há algo mais importante em jogo.
Fase 3: Sistema operacional em linguagem natural
O horizonte seguinte é um mundo onde os dispositivos recuam para segundo plano e as máquinas aprendem a trabalhar do nosso jeito, não o contrário. Isso elimina a “divisão digital” causada pelo treinamento constante em novas interfaces: 2 bilhões de pessoas hoje não participam da economia digital porque não cresceram com as máquinas certas. Quando as máquinas se adaptarem aos humanos, essa barreira cai.
Inteligência ilimitada: a teoria que pode redefinir a competitividade
O conceito central da palestra, e do livro de Kass, é o que ele chama de “unmetered intelligence” (inteligência ilimitada ou não mensurada).
A teoria, desenvolvida com Boris Power (ex-Head de Engenharia de Pesquisa da OpenAI) em 2021, propõe que a inteligência seguirá o mesmo caminho de todos os recursos que já foram escassos: do caro ao barato, do raro ao abundante. Em algum ponto, competir com base apenas em brilhantismo intelectual se tornará impossível, porque todos terão acesso ao mesmo nível de inteligência.
Kass é explícito sobre os limites dessa ideia: inteligência ilimitada não significa que todos se tornarão brilhantes. A internet não fez todos pesquisadores. A alfabetização não fez todos leitores. Ter acesso à inteligência não garante usá-la bem.
O que a tese propõe é que o diferencial competitivo migrará do acesso à inteligência para o uso que se faz dela, individualmente e coletivamente.
Para líderes de T&D, essa é talvez a implicação mais estratégica da palestra inteira.
Confira os episódios especiais do Fala T&D na ATD 2026
Os quatro riscos reais que precisamos enfrentar
Kass não pinta um quadro ingênuo. Antes de apresentar as oportunidades, ele nomeia com clareza os riscos que a inteligência ilimitada traz, e o que precisa ser feito.
1. Idiocracia: o risco do pensamento crítico em colapso
A idiocracia, na definição de Kass, é o risco de que indivíduos deixem de exercitar o pensamento crítico ao perceber que ele não é mais necessário para a sobrevivência. Ele aponta que a Geração Z parece ser a primeira geração a não superar cognitivamente a anterior, menos propensa a ler, andar de bicicleta ou nadar.
Mas a causa não é a IA. Os dados mostram que essa tendência começou em 2012, com a disseminação de smartphones entre crianças; se intensificou em 2015, com o fim dos empregos de verão juvenis; e explodiu em 2020, com o ensino remoto.
Paradoxalmente, a mesma geração apresenta uma curva K: nunca houve tantos jovens com habilidades excepcionais em diversas áreas, aproveitando o acesso à informação para desenvolver talentos sem precedentes.
A solução, na visão de Kass: redesenhar as escolas para ensinar não o quê aprender, mas como aprender, e por quê. Agência e responsabilidade pessoal serão os critérios definidores da próxima geração.
2. Desumanização: o risco do digital substituir o físico
Kass foi diretamente: não deveríamos ter dado smartphones para crianças. Os dados empíricos são claros, taxas crescentes de depressão e ansiedade entre jovens têm correlação direta com isolamento e reclusão digital.
A resposta não está só em proibir. Está em reinvestir no mundo físico que negligenciamos: parques, calçadas protegidas, centros comunitários, comércio local. Políticos locais, segundo ele, têm muito mais poder para fazer isso do que os nacionais, e deveriam ser cobrados por isso.
3. Bad acting: a ameaça invisível do mundo online
Cerca de 9% da população é naturalmente propensa a comportamentos antissociais. Historicamente, essas pessoas precisavam da presença física para causar dano. A internet criou o “bicho-papão sem rosto”, alguém que pode te prejudicar sem que você jamais o veja.
Em 2025, US$ 8 bilhões foram perdidos para crimes financeiros digitais só entre idosos nos Estados Unidos. Kass propõe três frentes: reconhecer que o mundo físico nunca foi tão seguro (e o online, tão perigoso); cortar burocracia para que os bons atores possam se defender; e criar legislação intimidadora o suficiente para desencorajar ataques de baixo custo.
4. Deslocamento de identidade, não de empregos
Esse talvez seja o ponto mais provocativo da palestra. Kass diz que não se preocupa com deslocamento de empregos por um motivo econômico, preocupa-se pelo motivo certo: identidade.
Para ilustrar, ele cita que “Miller” e “Smith” estão entre os sobrenomes mais comuns dos Estados Unidos porque, por milênios, as pessoas se nomeavam conforme sua profissão. Em um mundo onde a IA transforma funções profundamente, a dor não será de fome, será de não saber quem somos fora do nosso trabalho.
Ele referencia John Maynard Keynes, que em 1930, no auge da Grande Depressão, escreveu “The Economic Possibilities for Our Grandchildren”, argumentando que a humanidade um dia resolveria o problema econômico e então enfrentaria seu desafio mais profundo. Kass acredita que esse momento está chegando.
40% dos americanos odeiam seus empregos, e têm pavor de perdê-los. Isso diz tudo.

As quatro razões para o otimismo fundamentado
Depois do diagnóstico honesto dos riscos, Kass apresenta evidências concretas de por que o futuro pode ser, e provavelmente será, melhor.
1. Expansão do potencial humano
O que uma pessoa consegue fazer hoje é, em termos de produtividade, 100% mais do que em 1995, 400% mais do que em 1960 e 1.000.000% mais do que em 1800. Essa expansão não para, e a IA acelera ainda mais essa curva.
2. Avanços científicos sem precedentes
Existem apenas 10.000 pesquisadores estudando a cura do câncer no mundo, não porque não haja interesse, mas porque o processo de formação é altamente excludente. A inteligência ilimitada não pergunta “e se houvesse um milhão de pesquisadores?”, pergunta: e se os 10.000 fossem 1.000 vezes mais produtivos?
Os resultados já aparecem:
- O primeiro antibiótico descoberto em 60 anos foi identificado com auxílio de IA
- O HIV foi separado do DNA de um paciente com suporte de IA
- O bebê KJ, em maio de 2025, recebeu uma terapia gênica personalizada que curou uma doença genética fatal, ele viveria apenas até os três anos sem o tratamento
- Três doenças raras foram curadas desde então, com CRISPR e IA
- Há agora um tratamento aprovado pelo FDA para surdez
- É possível detectar câncer de pâncreas três anos antes dos sintomas
Além disso, o Japão desenvolveu um plástico biodegradável, mais resistente e mais barato que o convencional. A fusão nuclear — energia sem carbono — avança. A computação quântica expande horizontes.
Kass menciona o “Efeito Roger Bannister”: antes de Bannister correr a milha em menos de quatro minutos em 1954, cientistas diziam ser fisicamente impossível. Depois que ele o fez, 47 outros atletas repetiram o feito em menos de três anos. Quando alguém derruba um limite considerado impossível, o mundo todo avança.
3. Deflação de bens e serviços
Kass defende que a IA acelerará a queda de preços em bens e serviços — um processo que já vem ocorrendo em eletrônicos, alimentação e transporte. O supercomputador no seu bolso custava US$ 20 milhões há 30 anos; hoje é praticamente gratuito.
O problema real, ele aponta, está em três categorias que ficaram caras por escolha política, não tecnológica: moradia, saúde e educação. Desde 1990, a inflação acumulada nessas três áreas chegou a 700% nos EUA. Isso não é inevitável — é uma falha de política pública. E a IA tem o potencial de reverter esse quadro, se houver vontade política de usá-la para isso.
4. Mais tempo: e mais vida
Kass afirma, com convicção, que a IA nos dará mais tempo. Não apenas por vivermos mais (o que ele também acredita), mas por automatizarmos tarefas que hoje consomem nossa atenção de forma improdutiva.
O paradoxo que ele expõe: quando pergunta às pessoas se teremos mais tempo livre no futuro, a maioria diz que não. Mas quando pede para verem o tempo de tela no celular, a resposta muda. Não é que o tempo não existe — é que o estamos desperdiçando em relações compulsivas com dispositivos. A tela invadiu cada espaço intersticial que antes era ocupado por tédio criativo, conexão espontânea e contemplação.
O que fazer: cinco orientações práticas de Kass para líderes e profissionais de T&D
A parte final da palestra foi direcionada especificamente para quem está na sala — líderes, profissionais de aprendizagem e desenvolvimento e tomadores de decisão organizacional. Kass apresentou cinco orientações:
1. Ancore-se em missão, visão e valores;
Em um mundo onde a IA facilita infinitamente a adaptabilidade — e pode fazer qualquer pessoa soar genial no LinkedIn com um único prompt —, a tentação é ser camaleão. Kass adverte: o amigo que todos menos gostam é aquele que nunca discorda, que diz o que os outros querem ouvir.
Adapte os meios, não o porquê. Seja flexível nos caminhos que usa para chegar ao seu objetivo; mas mantenha o objetivo. A tecnologia muda muito — os valores, não.
2. Aprenda a aprender
A correlação entre área de estudo e resultado econômico está em queda acelerada. O que importa não é o que você sabe hoje, mas sua capacidade de adquirir novos conhecimentos. Kass orienta jovens a estudarem o que amam, não para o mercado, mas para desenvolverem o gosto pela maestria e pelo esforço intelectual genuíno.
Para profissionais de T&D, isso é especialmente relevante: o design de aprendizagem precisa preparar pessoas para aprender, não apenas para executar.
3. Vá para fora
Com humor e seriedade, Kass pediu: faça reuniões ao ar livre. Toque grama. Leve seus filhos para parques. A natureza e o mundo físico oferecem algo que nenhuma tela consegue replicar. É uma prática de saúde cognitiva, emocional e comunitária.
4. Seja humano
Aqui está o coração da palestra. Kass contou sobre o prêmio de carreira recebido por seu pai, oncologista. Uma paciente subiu ao palco e falou por cinco minutos: os primeiros 30 segundos foram sobre o diagnóstico e o tratamento. O restante do tempo, ela descreveu como o pai de Kass a fez sentir.
Ela havia consultado três oncologistas e recebido os mesmos três prognósticos e as mesmas três recomendações de tratamento. Concluiu que o médico já não era mais o ser mais inteligente na sala — a tecnologia havia avançado a ponto de determinar a próxima melhor ação. Portanto, disse ela: “A empatia no atendimento não é mais um diferencial. É o produto.”
Kass tirou desse episódio uma conclusão que hoje orienta seu trabalho: se a oncologia — considerada a especialidade médica mais complexa — pode ter sua dimensão cognitiva comoditizada pela IA, nenhuma função está imune. O que restará como diferencial humano são as qualidades que sempre chamamos de “soft skills”: curiosidade, empatia, coragem, sabedoria, humor e moralidade.
“Talvez essas sejam, de fato, as únicas habilidades.”
5. Pratique o otimismo como obrigação moral
A última mensagem de Kass foi uma das mais fortes da palestra: “Hoje é o melhor dia para nascer. E amanhã será ainda melhor.”
Ele reconhece que é difícil sentir isso no estômago — porque estamos sobreexpostos a notícias negativas e subexpostos a boas notícias. O bebê KJ foi curado. Três doenças raras foram eliminadas. Um plástico melhor está chegando. Essas histórias existem — mas não as contamos.
Se você tem filhos, se cuida de outra pessoa, se vai herdar ou construir o mundo de amanhã: o otimismo não é ingenuidade. É uma postura ativa de quem escolhe lutar por um futuro melhor em vez de se paralisar diante do que pode dar errado.
Tabela-resumo: riscos e oportunidades da inteligência ilimitada
| Dimensão | Risco | Oportunidade |
|---|---|---|
| Cognição | Declínio do pensamento crítico (idiocracia) | Acesso democratizado ao conhecimento (curva K) |
| Social | Desumanização e isolamento digital | Reinvestimento no mundo físico e comunidades |
| Segurança | Crescimento do crime digital e bad acting | Legislação inteligente e normas de segurança digital |
| Trabalho e identidade | Deslocamento de identidade profissional | Redescoberta do propósito humano além do cargo |
| Ciência | — | Avanços radicais em saúde, energia e materiais |
| Economia | Inflação estrutural em moradia, saúde e educação | Deflação ampla; IA como ferramenta de política pública |
| Tempo | Dependência compulsiva de telas | Automação de tarefas; mais tempo para o que importa |
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