A quarta inteligência não tem dono

Insights estratégicos de líderes para líderes. Na Edição 01, CEOs compartilham experiências, decisões e aprendizados que transformam negócios.
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Faço a mesma pergunta em toda mesa de diretoria que me recebe, e ela quase sempre produz a mesma pausa.

Quem, aqui dentro, é responsável por fazer as inteligências da empresa conversarem entre si?

A pausa, no entanto, não é de desconhecimento. Na verdade, é de constatação. Afinal, as três primeiras têm dono, e todo mundo na sala sabe quem é.

Em primeiro lugar, a inteligência humana tem RH e liderança. Já a inteligência organizacional conta com processos, sistemas e alguém responsável pelo ERP e pelo CRM. Além disso, nos últimos dois anos, a inteligência artificial também ganhou dono rapidamente: um comitê, uma diretoria ou um projeto com verba e prazo definidos.

A quarta não tem ninguém

Chamamos essa quarta de inteligência conectiva, e ela é a que determina o resultado das outras três. Em outras palavras, não é mais importante, mas opera sobre elas em vez de apenas se somar a elas.

É o ritual que converte decisões em memória institucional. Além disso, é o fluxo que faz o aprendizado da linha de frente chegar a quem decide três níveis acima. A governança, por sua vez, evita que a mesma questão seja resolvida pela terceira vez simplesmente porque ninguém registrou as duas decisões anteriores.

Nada disso aparece em um organograma. Por isso, não há um responsável.

Por exemplo, vi isso de perto em junho. No CBTD, a Bravend passou três dias medindo em campo qual é o maior desafio de quem faz T&D acontecer. Como resultado, quatro respostas concentraram quase 60% das escolhas: formar gestores que sustentam o aprendizado, gerar engajamento, comprovar ROI e mensurar impacto.

No entanto, o mercado trata esses quatro pontos como problemas separados. Cada um tem seu fornecedor, seu projeto, sua verba e sua reunião. Eu leio de outro jeito: são quatro sintomas de uma única ausência.

Consequentemente, o que se aprende não encontra a estrutura que o sustenta, não gera o dado que o comprova nem devolve o resultado que engaja. Nenhum desses elos falta por incompetência. Pelo contrário, eles faltam porque ninguém foi encarregado de mantê-los ligados.

Ter dono, porém, não significa criar um cargo novo — e eu desconfio de quem propõe isso como primeira medida. Na prática, significa fazer três coisas mais chatas e bem mais baratas: definir onde o conhecimento gerado no trabalho vira registro, determinar quem revisa esse registro e com que frequência e estabelecer quem responde quando a conexão quebra.

Portanto, é um trabalho de liderança, não de tecnologia.

A parte incômoda é que a empresa que não faz isso não percebe. Ainda assim, ela continua entregando. Só que, como depende sempre do esforço das mesmas pessoas, perde tudo quando elas saem.

Vinte anos formando profissionais me ensinaram que quase nenhuma organização sofre por falta de conteúdo. De fato, trilha existe, plataforma existe, dado existe e, agora, ferramenta de IA também existe, com licença paga. O que falta, portanto, é a camada que faz esse conjunto virar um comportamento diferente na segunda-feira.

Por fim, se você chegou até aqui e ainda não sabe quem responde por essa camada na sua empresa, a resposta provavelmente é ninguém. E isso não é um problema de tecnologia. É uma cadeira vazia.

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