A maioria das histórias sobre IA em treinamento começa com o sucesso. Esta começa com o erro, principalmente quando falamos sobre treinamentos híbridos.
Na ATD26, em Los Angeles, Ayami, gestora de aprendizagem e desenvolvimento de uma empresa japonesa de serviços de carreira, subiu ao palco para contar uma jornada que começou com entusiasmo excessivo.
No entanto, essa trajetória também passou por falhas concretas e, por fim, chegou a um modelo que hoje entrega resultados que a abordagem anterior jamais conseguiu alcançar.
O título da sessão era direto: Human First as Smart System, não é um slogan. É um princípio que a equipe chegou depois de errar muito.
Treinamentos híbridos: As três fases, e por que a fase dois foi um fracasso
A jornada da empresa passou por três momentos distintos.
Fase 1: 100% humano. Todo o treinamento era conduzido por facilitadores experientes. O processo de onboarding de um novo vendedor exigia 18 horas de trabalho individual: três horas de roleplay, 4,5 horas de shadowing e quase dez horas de sessões de feedback.
Era eficaz, mas impossível de escalar. O conhecimento vivia na cabeça dos melhores trainers. Quando alguém saía, o conhecimento sumia junto.
Fase 2: 90% IA, 10% humano. Quando as ferramentas de IA chegaram, a reação foi entusiasmo. Se a IA pode simular conversas, dar feedback instantâneo e estar disponível 24 horas por dia, por que não usá-la ao máximo? A equipe reduziu o envolvimento humano o tanto quanto possível. Os resultados não foram os esperados.
Fase 3: 60% humano, 40% IA. O modelo atual, construído depois das falhas da fase dois. É onde a empresa está hoje, e onde os resultados apareceram de verdade.
O que deu errado na fase de 90% IA
Ayami foi precisa ao descrever as falhas, e honestas o suficiente para nomeá-las sem eufemismo.
Problema 1: o nível certo de dificuldade é impossível para a IA calibrar sozinha. Quando o roleplay simulado era complexo e realista, os vendedores novos se perdiam. Quando era simplificado para reduzir a confusão, deixava de ter qualquer conexão com situações reais. Na primeira chamada com um cliente de verdade, os vendedores congelavam.
A IA não consegue replicar o contexto não-verbal de uma conversa humana, e é exatamente esse contexto que determina se a prática vai ou não transferir para o trabalho real.
Problema 2: a motivação desapareceu. Praticar com IA se parecia com lição de casa. Repetitivo, solitário, sem energia humana, sem encorajamento, sem conexão. Quando a motivação cai, o aprendizado para. Simples assim.
Problema 3: a IA dava as respostas que deveriam vir do processo humano. Quando os vendedores passaram a usar IA para perguntas como “o que devo recomendar para este cliente?”, a IA respondia, e isso matou o processo de pensamento que os treinamentos híbridos deveria desenvolver. As perguntas profundas, que constroem julgamento e conexão humana, deixaram de ser feitas. O desenvolvimento parou onde deveria começar.
A conclusão que a equipe chegou ficou como princípio: a IA é boa em preencher o primeiro nível de aprendizagem, consciência e informação. O que transforma conhecimento em comportamento é o segundo nível, e é onde o humano é insubstituível.
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O que só humanos conseguem fazer em treinamentos híbridos

A equipe de Ayami estudou seus melhores trainers e identificou três elementos que a IA simplesmente não consegue replicar, independentemente da ferramenta ou do nível de sofisticação.
1. Diálogo que constrói motivação real. Quando um trainer diz “acredito em você, e aqui está o que eu vejo em você”, algo muda, não porque é informação, mas porque é conexão. Essa energia não vem de um sistema.
2. Compartilhar falhas que criam permissão para errar. Quando um trainer diz “eu cometi o mesmo erro quando comecei”, isso reduz o medo e cria abertura para tentar e falhar sem vergonha. A IA não tem “já estive lá”.
3. Perguntas que transformam como alguém pensa permanentemente. “O que você sentiu quando o cliente reagiu assim? O que você acha que ele realmente precisava?” Essas perguntas, feitas no momento certo por um humano que lê a situação, são o que faz o conhecimento virar ação.
A IA pode gerar perguntas, mas não pode ler o estado emocional da pessoa à frente e calibrar a pergunta certa para aquele momento específico.
Os três elementos juntos desenvolvem uma coisa: inteligência emocional. E os dados que a sessão citou são diretos — IQ emocional é duas vezes mais preditivo de performance do que QI cognitivo, e a maioria dos desligamentos de carreira se deve a competências emocionais, não técnicas.
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O modelo de treinamentos híbridos que funcionou, e os resultados
O modelo que a empresa construiu alterna intencionalmente entre IA e humano em cada etapa do processo de treinamento de vendas. Não é IA complementando o humano de forma genérica, é cada ferramenta no lugar onde ela performa melhor.
Etapa 1: Definição de habilidade (humano)
O trainer define o que “bom” parece em cada estágio de uma conversa com cliente: como abrir, como escutar, como aprofundar, como construir uma proposta. Isso não pode ser delegado à IA, exige julgamento humano, experiência vivida e compreensão profunda do cliente real.
Etapa 2: Prática com IA.
Repetição sem julgamento, disponível a qualquer hora, sem o constrangimento de errar na frente de alguém. O vendedor pratica até que o fluxo da conversa se torne natural. A IA não se cansa, não fica impaciente, não pune o erro.
Etapa 3: Feedback do trainer (humano).
O trainer observa, não só as palavras, mas como foram ditas. Pergunta: “Você sentiu curiosidade genuína aqui? Qual era a expressão do cliente quando você disse isso? Aquele tom de voz era adequado para a imagem que você quer transmitir?” Isso é coaching de inteligência emocional. É trabalho profundamente humano.
Etapa 4: Conversa real com cliente.
Gravada e transcrita, com consentimento, para criar o registro objetivo do que aconteceu de verdade.
Etapa 5: Análise com IA.
A IA analisa o que realmente ocorreu, não a memória do vendedor, não a percepção do trainer, mas o registro objetivo. Quando a energia do cliente mudou? Quando o vendedor interrompeu? Quais momentos construíram confiança?
Etapa 6: Feedback individualizado (humano).
Com os dados em mãos, o trainer não chega com uma lista de correções. Chega com perguntas: “O que você sentiu que estava funcionando quando o cliente disse aquilo?
O que você acha que ele realmente precisava? O que você faria diferente?” Essas perguntas permitem que o vendedor descubra as respostas, e o que é descoberto é retido de forma completamente diferente do que é apenas recebido.
Os resultados após a implementação do modelo:
- Taxa de entrada de clientes subiu de 37,7% para 40,8%
- Número de trainers reduziu de 19 para 15, com aumento de 126% na produtividade por trainer
- Contatos mensais únicos aumentaram 8,7%; contatos semanais cresceram 30%
- Vendedores que atingem metas praticam 31% mais sessões com IA e 22% mais tempo total, não menos
Esse último dado surpreendeu a própria equipe: a IA que antes desmotivava, dentro do sistema híbrido com suporte humano forte, tornou-se algo que os vendedores buscavam ativamente.
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A pergunta que mudou a abordagem dos treinamentos híbridos
Um dos deslocamentos mais importantes que a sessão trouxe foi sobre como os próprios trainers foram desenvolvidos. O modelo anterior: o trainer chegava à sessão com uma lista de pontos de feedback preparados. “Vou dizer que ele precisa falar mais devagar. Vou apontar que falou demais sobre o produto.”
O problema é que esse feedback, mesmo bem-intencionado, frequentemente não é absorvido, porque o vendedor ainda está processando a experiência da conversa e não está em estado receptivo para receber lista de correções.
A nova pergunta: em vez de “que feedback devo dar?”, o trainer passou a perguntar “que pergunta posso fazer que vai ajudar essa pessoa a descobrir a resposta por conta própria?”
No entanto, fazer a pergunta certa é muito mais difícil do que preparar a resposta certa. Afinal, exige ler a pessoa à frente, os sinais verbais e físicos — e confiar que ela tem a capacidade de crescer. Por isso, é um trabalho que nenhuma IA consegue fazer.
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As duas perguntas que a sessão deixou sobre treinamentos híbridos
Ayami encerrou com dois convites para reflexão, simples o suficiente para levar direto para o próximo dia de trabalho:
Primeira pergunta: Em sua organização, as pessoas ainda estão executando tarefas que poderiam ser delegadas à IA — pesquisa de informações, avaliações básicas, tarefas repetitivas? Se sim, essa é uma oportunidade, não de reduzir headcount, mas de liberar pessoas para fazer o que só humanos fazem.
Segunda pergunta: As pessoas conseguem de fato focar no trabalho humano que só elas podem realizar? Os trainers estão passando o tempo em coaching profundo — ou em tarefas administrativas que um sistema poderia fazer por eles?
A conclusão: “A IA não está aqui para nos substituir. Está aqui para liberar tempo, para que possamos investir no que só humanos fazem: conexão, empatia, significado, confiança, perguntas profundas.”
Contexto: a sessão na ATD26
A sessão “Human-AI Training Evolution” foi apresentada por Ayami, gestora de aprendizagem e desenvolvimento de uma empresa japonesa de serviços de carreira, na ATD International Conference 2026, realizada em Los Angeles.
Vale destacar que o tema do equilíbrio entre IA e desenvolvimento humano atravessou toda a conferência. Nesse sentido, Zack Kass argumentou que empatia, julgamento e presença são as competências que não se commoditizam, e são exatamente essas que o modelo de Ayami preservou no centro do sistema.
Da mesma forma, Will Guidara mostrou que momentos extraordinários não escalam sozinhos, e que converter insight individual em capacidade coletiva exige design intencional do sistema.
O modelo de Ayami é precisamente isso: um sistema que, consequentemente, converte o que estava na cabeça dos melhores trainers em algo que a organização toda pode aprender.
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FAQ
Por que o modelo de 90% IA falhou?
Existem três razões principais para isso: em primeiro lugar, a IA não consegue calibrar o nível de dificuldade ideal sem o contexto humano da conversa real; em segundo lugar, a prática sem conexão humana reduz a motivação até o aprendizado parar; e, por último, quando a IA fornece respostas que deveriam vir do processo de raciocínio humano, ela elimina o desenvolvimento do julgamento que o treinamento deveria construir.
O que é o modelo 60/40 e como ele funciona?
O modelo alterna intencionalmente entre IA e humano em cada etapa: primeiro, o trainer define o que “bom” parece (humano);
- em seguida, o vendedor pratica com IA (repetição segura);
- depois disso, o trainer dá feedback com perguntas profundas (humano);
- paralelamente, a conversa real é gravada e analisada pela IA (dados objetivos);
- e, por fim, o trainer conduz uma sessão individual com perguntas, não respostas (humano). Dessa forma, cada etapa usa a ferramenta certa para o que aquela etapa exige.
Como a IA que antes desmotivava passou a ser buscada ativamente?
O contexto mudou. IA isolada parece lição de casa, repetitiva e sem sentido. Porém, a IA dentro de um sistema com forte suporte humano tem propósito claro: os vendedores sabem por que estão praticando, sentem-se apoiados pelos trainers e querem melhorar. Com isso, o resultado: quem atinge metas pratica 31% mais sessões com IA, não menos.



